"UM CARINHO"...ALDEIA ADENTRO!

Quando um brinquedo é entregue em mãos, a alegria desmultiplica-se por toda a aldeia.


Por: João Almeida


A par do tecnicismo dos projectos a intervenção directa nas comunidades, onde quase nada chega, é por assim dizer, a parte mais apaixonante e contagiante das missões. Desde 2007, que caminho por via terrestre, até à Guiné-Bissau, atravessando seis países, tais como Espanha, Marrocos, Sahara Ocidental, Mauritânia, Senegal e Gâmbia, até ouvir em Pirada (local de fronteira na Guiné) as primeiras palavras em Português. Eis-me já na Guiné!
A travessia destes países, brinda-nos com a multi-culturalidade e experiências destes povos, que ao longo dos anos e depois de tantas passagens, acabam sendo parte de nós. São sete dias maravilhosos, repletos de sensações e de muita emoção.
Agora, chegados ao destino, inicia-se o trabalho.

UM BRINQUEDO, UMA FESTA!

O que por vezes a nós, pode parecer insignificante, tem, para estas crianças um acrescentado valor e carinho. Um simples brinquedo, um simples caderno, ou até uma mochila com material escolar, são como "pão prá boca" em muitos lugares isolados, tão isolados, que muitas das vezes, desconhecem muitas das realidades internas, quanto mais de um outro país, de um outro qualquer continente.
Calçado, vestuário para senhora e criança, milhares de brinquedos. Para bebés, muitos dos donativos, chegaram-nos de empresas sensibilizadas com algumas imagens que lhes fizemos chegar, no campo de trabalho da nossa organização. Para além da saúde, educação e de todos os projectos que podermos desenvolver, a acção de apoio social directo ás populações mais desprotegidas, é de facto um trabalho a manter.
Consegue imaginar, aparecer de surpresa, numa destas aldeias de "Tabancas" isoladas, com caixas de doações para estas crianças? Talvez não consiga, mas poderemos assegurar-lhe que é uma sensação, única, especial, que achamos que cada português deveria passar por tal experiência. Para além dessa "prenda de esperança", o carinho que nos é replicado por milhares de pessoas, que sabem que ali...onde nada chega, ou quase ninguém se lembra da sua existência, um dia...um grupo de pessoas, lhes entra, aldeia adentro, com um carinho rubricado por centenas de portugueses. Isso, vai acontecer de novo. Aliás, nem podia ser de outra forma.
Aos doadores de milhares de artigos, de todo o género, poderemos assegurar-lhes, que tudo chegará em mãos, directamente, aos que precisam apenas...que não nos esqueçamos que eles existem.

O TRILHO DA MINHA JORNADA

Mato fora, por entre o cheiros dispersos, produzidos pela natureza, onde o calor é poderoso e comanda o ritmo das gentes mais isoladas, por entre machambas de cultivo doméstico, desenhadas pela simplicidade dessas gentes, estão pessoas, com suas casas de colmo, Bambu, ou de "Pau-pic", salpicadas com o barro que as chuvas de encarregaram de misturar, ou a mão do homem, que a utiliza como argamassa, para proteger as paredes. É tradicional, é onde estão pequenas ou grandes famílias, que passam despercebidas, pelo tempo, e sofrem em silêncio, dada a sua natureza.
Ninguém tem tempo, para lamurias. Todos se entre-ajudam, talvez da forma mais cruel, carregando tudo à cabeça, e a água, vem de algures, que dista a muitos quilómetros, onde se vislumbram, as crianças, logo ao nascer do sol, de baldes carregados, sem desperdiçar uma única gota. Crianças que não têm tempo para saber o que é ser criança, que são a grande ajuda da família. Aqui a vida, partilha-se no espaço aberto da casa, a que lhe chamam com altivez o seu quintal, mulheres que procuram nos perigos escondidos da selva, lenha, capim, entre muitas outras coisas, e os homens que percorrem os estreitos do rio, para nas suas entranhas, conseguir algum alimento.
A assustadora "Catana" não é uma arma, é a única e talvez, uma das mais importantes ferramentas de sobrevivência, que dispensa manual de instruções, mas que serve para "abrir" o caminho à subsistência. Serve para tudo, está por todo o lado. Para quem vive isolado no mato, dificuldades são como o "Capim"...há em todo o sítio, aparecem de rompante por todo os cantos. Faz parte!
É, a essas pessoas, que a sociedade "belisca", mas que no meio de tantas necessidades, conseguem produzir um sorriso e a simplicidade de bem receber. Assim que um "forasteiro" por essas bandas entra, saltam os seus gritos tradicionais, entoam-se cânticos e "gingam" o corpo, num sincronizado balancear, revelador da sua hospitalidade, pura e real. Apesar de tudo, dessas gentes, raramente se escuta um "...". Pelo contrário, têm a capacidade de mostrar esse sorriso, que nos incute e anuncia coragem. É a essas gentes, que iremos levar também um pouco da nossa "esperança".
Depois...bom depois, certamente, desbravaremos outros trilhos, onde conheceremos histórias de vida. Vida, que provoca o meu pensamento, como se de um espelho se tratasse, e visse reflectido o quão egoísta e vaidoso é esse meu canto, onde todos os "luxos" gravitam há nossa volta, e por vezes nem queremos perceber, que noutro distante "mundo", a palavra crise...nunca se prenuncia! Onde tudo o que parece excedentário, não se deita fora, não se desperdiça.
Agora, será importante que cada um de nós perceba, que a realidade desta missão, não é só desenhada por uma ONG. Cada um, dos que doaram, ajudaram e apoiaram a iniciativa, têm uma grande contribuição no resultado e nos objectivos, no qual somos mediadores. Por essa razão, o nosso obrigado, em nome dos que não o podem fazer directamente. E aos que comigo "marcham" nesta jornada, só lhes posso desejar determinação, coragem e altruísmo. Cada caminhada por essa África adentro, inspira-nos para o dia seguinte. Somos muitos, de organizações várias, todos com objectivos de levar um sinal de esperança a estes povos, pese embora o trabalho muitas vezes não seja reconhecido, e muitas vezes "beliscado" pela corrupção, deve continuar. Eu no meu ultimo terço de vida, ainda quero fazer mais. Nunca tive a pretensão de mudar o mundo, mas se puder... estar presente "nesse" mundo, que ansiosamente espera por nós abnegadamente, faz-me sentir bem. Estranhamente, se por um lado, recebo largos e motivadores elogios, também sinto a critica inocente por um lado e agressiva por outro, de porque é que eu me esforço em ajudar "estes" povos, quando temos à nossa porta tanta dificuldade. Limito-me a não dar resposta, porque já por si essas perguntas revelam profunda ignorância e desconhecimento de realidades sociais tão diferentes. Ora, como ainda acho que poderei ser muito útil neste processo, concluo com a certeza de que a palavra Cooperação não é um palavrão institucional, mas sim uma identificação importante daquilo que fazemos por esse mundo fora. Bem hajam todos os voluntários do mundo!

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