«No mundo, há gente notável!»

15/11/10

SONHOS CADA VEZ MAIS FRÁGEIS!

Por: João Almeida
Opinião
Só uma reveladora falta de conhecimento, egoismo rocheado de hipocrisia ou imatura forma de olhar o mundo, pode por vezes, questionar-nos, do «porquê»...de trabalharmos por causas como aquela a que nos propussemos dar continuidade em África, naquela África que tem na lingua de Camões, referências históricas, culturais e até morais. E quando descamba, para as comparações (com alguma inocente legitimidade), de que afinal, até temos muitas crianças pobres e muita crise interna... e então, que responder?
Costumo, -e já não é de agora-, responder com outra pergunta. Afinal quem reconhece, o trabalho de centenas de Organizações, Associações e Movimentos que meritóriamente, têm feito um notável trabalho comunitário, nos bairros, escolas, colectividades e bairros mais pobres em Portugal? Então, será que ninguém está atento a esses trabalhos? A Humanitarius, está vocacionada para o apoio social nos PALOPs, e por outro lado, num espectro silencioso de pobreza envergonhada em Portugal. É preciso fazer publicidade disso? Claro que não!
Faz dois anos, que na sequência de uma das nossas expedições á Guiné-Bissau, produzimos uma exposição no salão nobre da Junta de Freguesia de Portimão. Apresentámos uma rigorosa selecção de fotos, sobre "momentos", "expressões" e até "inquietudes".
A foto (acima), foi por um lado apreciada, comentada, criticada e até maltratada. Sim, digo maltratada, quando africanos na diáspora, ficam irritados com algumas das fotos, onde até chegaram a dizer, ser uma "exploração da pobreza". Confesso, nunca esperei ouvir tamanha parvoice, especialmente, vinda de um africano, Guineense e que, desde que está em Portugal (bons anos), já se esqueceu, de como vive o seu povo, das frágeis vidas inconformadas do seus conterrãneos, e quiçá, daquilo que a sua familia passou ou passa para sobreviver, naquele seu país. Esse "comentário" entre outros (que nem merecem direito de resposta), só provam que (a procura de outros rumos), tornaram-no consumista, egoista e vaidoso. É duro, não ter entendido, que essa exposição, só visava sensibilizar as pessoas, para outras realidades bem diferentes, onde a simplicidade dos registos, nada exploram, apenas são reveladoras de olhares preocupados. Afinal, onde reside o problema da foto? Na quase nudez motivada por quase 40 graus de calor? No balanceado ritmo do pilão? Ou na dureza do trabalho, a que está sujeita uma criança de 6 anos?
O nome dessa exposição, era "Sonhos Frágeis"!
A imagem, a qual lhe dei um nome, chama-se "Sonhos Frágeis"!
A mentalidade de alguém que aqui, na diáspora até parece saber impor algum sentido crítico, sobre a sua própria infância, comparo-o com uma estatueta em gelo. Quando derreter, mostrará, todas as suas fragilidades.
A HISTÓRIA DA FOTO
Numa das nossas passagens pela Guiné-Bissau, fomos visitar a Tabanca do Bijante nas Ilhas Bijagós (Bubaque). A tarde estava demasiado quente, parámos um pouco na sombra fresca de uma Mangueira. Ali... a escassos metros, estava uma criança, magra mas enérgica. Uma menina de 6 anos (segundo disse). Fez questão de nos mostrar, como se triturava a "Mancarra" . Pegou no pilão, e ensaiou esse sequencial de "esmagamento" do amendoim (Mancarra), para produzir uma espécie de farinha, para complementar o molho que cobriria o caldo.
Extraordinário!
A criança, sentiu-se orgulhosa por ter explicado aos seus visitantes, oriundos de um qualquer lugar do mundo que desconhece, como se fazia tal coisa.
Perguntei-lhe se ía á escola, respondeu (timidamente) que ás vezes. Perguntei-lhe se tinha brinquedos...fez-se silencio, e então percebi, que desconhecia tal coisa.
Ora, moral desta curta história, ali...em poucos minutos, percebi, que afinal quem aprendeu alguma coisa... fui eu.
A criança, continuou suas tarefas familiares, mostrando-me que a sobrevivência tem de continuar. Acenando-me bem ao jeito do povo bijagó, de mão erguida mas parada, lá segui o meu rumo, a pensar que na sua frágil idade, a menina ensinou-me como se faz, e para que serve o caldo de Mancarra.
Nunca esquecerei, este momento na ilha de Bubaque.

QUANDO A ÁGUA POTÁVEL, È COMO "OURO" PARA AS ALDEIAS

Talvez seja como encontrar "Ouro", o desejo de poder beber água potável, especialmente nas aldeias mais interiorizadas da África que conhecemos. Basta sair das grandes cidades, para debater-mo-nos com o problema de poços artesanais, onde a água está, para além de contaminada, um verdadeiro perigo a céu aberto. Especialmente nesta altura do ano, em que disparam os casos de cólera, devido ao muito calor, acompanhado de chuvas constantes, onde os lençóis friáticos manifestam fragilidades e perigos vários. Assim que o coordenador da Humanitarius, visitou uma aldeia, em Manpatá (Guiné-Bissau), em que um poço comunitário, serve centenas de familias, as crianças dessa comunidade, juntaram-se em torno dele, como se esperassem, a possibilidade "milagrosa" de conseguir água pura para beber. Para além destes perigos, onde os níveis de contaminação superam qualquer perspectiva mais alarmante, a presença das crianças faz todo o sentido, como se manifestassem o seu alerta, para o que ali está.
Segundo alguns populares, não há outra saída, senão recorrerem aqueles poços de aldeia, pois a água potável, dista a cerca de cinco quilometros da sua aldeia.
A Humanitarius, visitou e registou a sua preocupação, entregando a uma organização nacional,(APROMODAC), um relatório, com a intenção de se encontrarem esforços, em produzir um ou dois furos artesianos semelhantes ao poço convencional, um (poço artesiano) é assim denominado quando as águas fluem naturalmente do solo, num aquífero confinado, sem a necessidade de bombeamento. Geralmente a sua profundidade é maior que a de um poço convencional, e em geral suas águas tem uma pureza microbiológica maior e com mais sais minerais.Em sua utilização normal para uso residencial, as águas são captadas através de canos.
Em articulação com outras parcerias, será possivel, conseguir alguma resposta a curto prazo, graças á eficácia e determinação dos agentes locais de intervenção comunitária.